Correr emagrece?

Correr sempre fez parte da realidade do ser humano. Primitivamente como instinto de fuga, já que corremos para fugir de um perigo iminente, posteriormente como forma de competição, a exemplo dos Jogos Olímpicos, iniciados na Grécia no século VIIIA.C. e, mais recentemente, como forma de queimar calorias, perder as gorduras acumuladas.

Mas será que correr, assim como outras atividades aeróbias, seria o melhor caminho para emagrecer?

O que sabemos é que até 1968 a ideia de exercício aeróbio nem existia. Ela surgiu após a publicação do livro “Aerobics”, do médico americano Dr. Knenneth H. Cooper. Foi a partir de então que uma crescente onda propagou a ideia de que exercícios envolvendo atividades aeróbias, como a corrida, seriam o ideal para queimar calorias.

Mas assim como estamos aprendendo que contar calorias não representa acumular ou perder gordura corporal, o mesmo se aplica às atividades físicas. Infelizmente muitos ainda imaginam que aqueles números que aparecem nos monitores de esteiras, bicicletas ou escadas representam a conta mágica das gorduras que estão sendo “queimadas”.

Chefe do Laboratório de Genética Molecular da Universidade Rockfeller, Estados Unidos, o médico e pesquisador Dr. Jeffrey M. Friedman, atesta que acreditar que apenas a prática de um execício aeróbio levará à queima é um erro, já que é a alimentação, em sua qualidade, quem determinará tais resultados.

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Dr Hugo Roy, da Universidade de Northwestern, Estados Unidos, chama a atenção para o fato de que o aumento da prática de uma atividade física leva, invariavelmente, a um maior consumo de alimentos, podendo até agravar a dificuldade em perder tal peso.

Ou seja, o que determinaria a melhora física, dentro de um aspecto de ganho ou perda, está primeiramente relacionado à sua alimentação. Usar a atividade física, principalmente a aeróbia, como arma, ou conta, para corrigir os erros alimentares é a mesma coisa do que achar que comer menos, consumir produtos diets e lights emagrece.

Assim como na esfera alimentar muitos recebem tais informações de forma questionadora, afinal de contas o conceito de que temos que fazer exercícios aeróbios para emagrecer ainda está na cabeça da grande maioria dos profissionais. Mas basta olharmos as estatísticas, onde desde a publicação do Dr Cooper, mais precisamente entre 1972 e 2005, a prática de atividades aeróbias aumentou 1.500%, mas mesmo assim observamos o aumento do ganho de peso populacional, e a constante dificuldade em perdê-lo, mesmo para os praticantes de atividades.

Portanto, assim como iniciado nos Jogos Olímpicos, há quase três mil anos, seja um corredor por prazer, por esporte, por superação de seus limites, mas não porque lhe disseram que correr emagrece.

Como proposto pelo autor americano Jonathan Baylor em seu livro“O mito da caloria”para ter um físico e saúde ideais você precisa rever seus conceitos de qualidade, tanto alimentar como de exercícios físicos, e não apenas contar números. O organismo humano é muito mais complexo do que uma simples conta matemática.

CrossFit e definição muscular: uma nova geração de treino?

Eis que de repente observamos um grande número de academias tomadas por alunos que pulam, saltam, exercitam-se em barras e cordas, carregam pesos geralmente em ritmo acelerado e com grande variação de movimentos, trabalhando força, equilíbrio, coordenação, resistência cardiorrespiratória e agilidade. Conhecido como CrossFit este tipo de treino vem ganhando adeptos e gerando debates em relação aos seus benefícios e riscos.

Na verdade poderíamos dizer que a “marca” CrossFit, criada em 2000, corresponde a um protocolo de treino onde o foco é a força e o condicionamento físico. Seus treinos lembram vários outros como, por exemplo, os treinos de condicionamento de lutas, que também ganharam nomes mais novos como o recente Funcional Fight. A ideia é associar atividades de resistência, ou força, a um elevado ritmo de frequência e intensidade. Aumentando-se o condicionamento aliado à força podemos esperar a melhora do metabolismo e a modificação da composição corporal.

Alguns profissionais, ainda não familiarizados com o treino, questionam sua segurança frente aos mais variados exercícios adotados. Alguns chegam até a contraindicar a modalidade acreditando oferecer riscos à saúde. Mas esta, ao contrário, é uma das grandes vantagens do treino: a adaptação dos exercícios diante do grau de preparo de cada aluno. Pelo fato de utilizar vários recursos podemos ter iniciantes realizando exercícios, digamos assim, mais leves, enquanto que poderemos ter outros, com alto grau de condicionamento, treinarem como militares.

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Do meu ponto de vista a questão mais importante em torno do CrossFit está na sua indicação individual. A grande maioria daqueles que hoje procuram realizá-lo está buscando a tão sonhada definição muscular. E realmente, imaginar um treino de força de alta intensidade poderia estar associado a uma mais rápida queima de gordura. Mas é exatamente aqui que devemos nos fazer a seguinte pergunta: seria o CrossFit a prática ideal para se atingir esta definição?

Como sempre caímos nos conceitos básicos de definição, inclusive já abordados na coluna, lembrando que ela não é um programa e sim um “estado” físico, onde temos o ganho de massa muscular seguido da queima de gordura. Seguindo este raciocínio só iremos conseguir definição se em primeiro lugar tivermos uma boa massa muscular, não só para que ela apareça, mas lembrando que uma parte dela será queimada no processo catabólico.

Muitos alunos estão iniciando seus treinos apostando suas fichas no CrossFit como aquele que irá modificar seu corpo e lhe dar o tão sonhado aspecto de músculos aparentes. Talvez estes alunos possam estar esperando um pouco mais do que irão encontrar, já que desejam muito mais do que a força e o condicionamento, foco inicial da atividade. E é pensando neste aspecto que o mais importante é, em primeiro lugar, avaliar os objetivos de cada aluno, determinar o seu estado físico inicial e ai sim, traçar um plano de treino.

Não tenho dúvidas de que o CrossFit possa ser um grande aliado nesta busca pela melhora corporal mas, como vários outros treinos e modalidades, ele poderá se perder na falta de uma avaliação prévia e na determinação de planos a serem seguidos. Afinal de contas, como em todas as práticas físicas, o importante não é seguir um modismo e sim ter a indicação precisa, no momento certo, para que tenhamos os resultados individuais alcançados.

Para ler mais:

Obesidade e a conta das calorias

Contando hormônios, não calorias

POR QUE ENGORDAMOS – E O QUE FAZER PARA EVITAR – livro

The Calorie Myth: How to Eat More, Exercise Less, Lose Weight, and Live Better – livro