Moradores de SP querem tirar linhas de alta tensão de perto das casas

Uma polêmica jurídica chega esta semana ao supremo tribunal federal. Moradores de um bairro de São Paulo querem tirar as linhas de alta tensão de perto da casa deles, porque acham que elas podem fazer mal à saúde e causar até câncer. Será? Ee a ciência, o que diz sobre isso?De um lado, torres e linhas de transmissão de energia. Do outro, moradores preocupados com a saúde.

“Umas cinco pessoas que eu conheço morreram nessa área de câncer”, conta Raimundo Medeiros, engenheiro civil e eletricista.

“Eu penso também se isso também não está me influenciando, se não estaria encurtando a nossa vida”, questiona Ligia Lobosco, professora de música.

As torres estão ali há décadas. E o incômodo cresceu com o passar do tempo.
“Foram aumentando a torre e aumentando a eletricidade que passava por ela”, conta Ligia.

Um dos primeiros a reclamar e mobilizar os vizinhos foi justamente um especialista na área: o engenheiro eletricista Orlando Lobosco, ex-diretor do Instituto de Eletrotécnica da Universidade de São Paulo. E pai da Lígia.

“Ele dizia que tinha esse risco, ele pesquisava muito, inclusive ele viajava para fora, para ver nos outros países quais eram as soluções”, afirma Lígia.

Pouco tempo depois, ele descobriu que tinha câncer de próstata. Morreu em 2003.

Fantástico – “Ele comentava com vocês que ele achava que tinha a ver com as torres?”

“Ele achava que podia ter sim”, conta Ligia.

O tema é quente: os cientistas procuram há muito tempo uma relação entre os campos gerados pelas linhas de alta tensão e doenças em seres humanos. Mas…

“Não há um consenso na comunidade científica a respeito dos efeitos. Não há relação com uma série de doenças que foram estudadas”, afirma Victor Wünsch Filho, professor de epidemiologia da faculdade de Saúde Pública da USP.

Existe uma doença suspeita: leucemia infantil. Alguns estudos internacionais encontraram uma possível relação comcampos magnéticos. Mas outros não acharam nada, como uma pesquisa feita recentemente no Brasil.

“Nós não detectamos risco de leucemia pra crianças que estão, estavam expostos a níveis mais elevados de exposição a campos magnéticos”, declara Victor Wünsch Filho.

Existem dois tipos principais de radiação. O primeiro é a chamada radiação ionizante, como a de uma bomba atômica. Essa, quando entra no organismo, faz estragos, quebra moléculas, faz surgirem cargas elétricas onde antes não havia nada. Nesse clima de instabilidade, podem aparecer até mutações no DNA e doenças como câncer.

O outro tipo são as radiações não-ionizantes, como as de uma linha de alta tensão ou de um exame de ressonância. Essas, quando entram no organismo, não provocam estragos. Se elas fazem mal e como esse mal seria causado, isso até hoje não se sabe.

A unidade que mede campo magnético se chama tesla. No Brasil, pela lei, os campos das linhas de transmissão não podem passar de 83 microteslas. Ou seja, 83 milionésimos de tesla. E o campo magnético diminui com a distância. Afastando um pouco da torre, o valor já baixa.

“Nós vamos nos posicionar a um metro do centro desse dispositivo que gera o campo, aguardar a medição, o valor inicial era 83, 82, caiu pra 8.7 microteslas”, explica Welson Bassi, pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.

Fora do laboratório, também dá pra medir.

Em Pirituba, na zona oeste de São Paulo, essa linha de transmissão aqui é a mesma que num outro ponto da cidade provocou uma ação judicial. Nós viemos com o Doutor Mário, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, pra fazer a medição.

“Esse equipamento ele mede o campo magnético emitido pelos cabos da linha de transmissão. A unidade dele é milligauss. Pra obter os microteslas, é só dividir os milligauss por dez”, explica Mário Leite Pereira Filho, responsável pelo laboratório de equipamentos elétricos e óticos do IPT.

Fantástico – A legislação federal pede 83 microteslas onde?

“Em qualquer local.”

Fantástico – A gente tá muito abaixo disso?

“Muito abaixo, 0,16 é mais de 100 vezes abaixo”, afirma.

Dentro da casa do seu Luiz, colada na linha, o campo é bem mais alto.

“23 microtesla. Mais que o dobro lá de baixo”
 

Na zona oeste de São Paulo, os moradores brigam na Justiça desde 2001. A discussão com a Companhia de Energia, Eletropaulo, chegou ao Supremo Tribunal Federal. Três dias de audiência pública no STF vão discutir o assunto esta semana.

Em vez dos 83 microteslas permitidos, os moradores querem apenas 1. É o nível da Suíça.

Segundo a Eletropaulo, a medição naquela área não passa de sete microteslas. E o índice é seguro.

“Não existem informações suficientes que possam estabelecer a relação de causa e efeito entre campo magnético e danos à saúde, não pode ser criado um temor difuso por alguma coisa que não está efetivamente conhecida”, explica Sidney Simonaggio, vice-presidente de operações da Eletropaulo.

Mas os moradores querem a mudança.

Fantástico – O que o senhor acha que vai dar em Brasília?

“O bom senso do judiciário ouvindo toda a sociedade dê uma solução compatível pra todo o Brasil”, afirma Raimundo Medeiros.

Artigo tirado do site G1

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