Doce dependência

Imaginar uma criança fumando, uma garota com menos de doze anos bebendo, um adolescente consumindo substâncias como a maconha ou cocaína, ou mesmo as comuns cenas de adultos dependentes de crack são imagens que chocariam a qualquer um de nós. Mas a cena de crianças lambuzadas de guloseimas, agarradas em garrafas de refrigerantes ou se divertindo em festas com as mãos e bocas cheias de docinhos parece tão “fofo” e o extremo oposto das anteriores.

Infelizmente, ao redor do mundo, pesquisadores estão buscando alertar a população em relação aos efeitos nocivos e dependentes do açúcar,usando comparações como estas acima para tentar acordar a população, antes que seja tarde demais.

No início deste ano a Inglaterra lançou a campanha “Ação contra o açúcar” cujo objetivo, além da disseminação da informação, é reduzir o consumo do produto no país em pelo menos trinta por cento. Países como a Austrália e Nova Zelândia já adotaram medidas semelhantes e, recentemente, Alemanha, Noruega e Suécia anunciaram o interesse em seguir o mesmo caminho.

O que coloca o açúcar na mesma classe das substâncias consideradas como “drogas” é o fato dele desencadear os mesmos mecanismos envolvidos no processo de dependência no ser humano. No início causa uma sensação de prazer e até efeitos calmantes e analgésicos, vale lembrar a famosa tática de dar água com açúcar para acalmar os bebês agitados. Com o tempo, e como as demais drogas, vem a tolerância, e a necessidade e compulsão por mais.

Com o consumo persistente começam a surgir os quadros de alteração de humor, a agitação, a depressão e a instabilidade emocional. A compulsão aumenta e, progressivamente, torna-se mais difícil de se libertar do consumo.

De acordo com o pesquisador americano Robert Lustig, da Universidade da Califórnia, Estados Unidos, o açúcar não traz felicidade, contrariando o que muitos acabam por usar como justificativa para seu uso. Ele confere prazer temporário, gerando a dependência e com isso os consequentes efeitos nocivos do seu consumo.

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E o problema pode começar antes mesmo de nascermos, já que, como explica a endocrinologista portuguesa Dra Isabel do Carmo, estudos mostram a expressão de prazer do feto, dentro da barriga da mãe, quando açúcar chega ao líquido aminiótico. Ou seja, potencialmente já podemos nascer dependentes.

E foi percebendo esta tendência ao consumo excessivo do açúcar que a industria alimentícia investiu em produtos que acabam por atrair o consumidor não somente pelo paladar, mas pela compulsão. Para isso desenvolveram campanhas e produtos que focam nas crianças, afinal de contas não existem restrições quanto ao consumo de tais alimentos.

E por mais que soe estranho falar em “restrições ao consumo” essa é a ideia defendida por Lustig, que acredita que o açúcar deva ser considerado substância tóxica, como o cigarro, regulando-se as taxas de impostos, usando rótulos que alertem para os perigos e proibindo o seu consumo a menores de dezoito anos.

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Podemos estar parecendo radicais em comparar açúcar à drogas tidas como ilícitas, mas vale a pena voltar no tempo e relembrar que um dia, inclusive nós, médicos, fomos propagadores de supostos “benefícios” dos cigarros.

Em qualquer momento da história da humanidade iremos observar que estamos cometendo erros por falta de informação e conhecimento, que com o tempo são revistos e corrigidos. Não temos dúvida de que lá na frente olharemos para o inofensivo e delicioso açúcar da mesma forma que hoje olhamos para o cigarro.

Conexão açúcar e hipertensão

Durante anos acreditamos ser o excesso de sal nos alimentos o grande vilão dos casos de hipertensão arterial, fazendo muitos acreditarem que dietas pobres em sal seriam o caminho da prevenção das doenças cardiovasculares.

E, como de costume, no tratamento de doenças crônicas, como a hipertensão, medicamentos foram introduzidos, mantendo-se a noção que tal controle seria feito, permanentemente, com dupla dieta sem sal e medicamentos.

Na verdade para muitos pesquisadores a teoria envolvendo sal e hipertensão nunca foi totalmente esclarecida.

Xarope de milho mais nocivo do que acucar5

Por outro lado vários são os autores que defendem que o consumo de sal é de extrema importância para nossa saúde e, em parte, a questão envolveria a qualidade de nosso sal, pobre em nutrientes. Pesquisadores do St Luke’s Mid America Heart Institute, em Kansas, alertam, inclusive, que o consumo diário inferior a doses de três a seis gramas de sal pode ser prejudicial à nossa saúde.

Por outro lado o aumento do número de produtos industrializados contendo sal, ou melhor, sódio, aumentou consideravelmente nas últimas décadas. Muitas vezes acabamos por não perceber, pois ele está contido em produtos que vão de alimentos à suplementos.

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Recentemente pesquisadores parecem ter descoberto, de fato, que a conexão hipertensão e alimentos está, na verdade, com o açúcar, e princialmente com os alimentos que contem xarope de milho, conhecido como high fructose corn syrup.

Ambos, sódio e açúcar, estão contidos na quase totalidade dos alimentos processados sendo, mais uma vez, o açúcar o verdadeiro vilão. Atualmente estima-se que mais de 180.000 mortes aconteçam anualmente nos Estados Unidos, como consequência do consumo de bebidas açucaradas.

Infelizmente o uso de medicamentos anti-hipertensivos não altera o curso das alterações metabólicas sofridas com o uso do açúcar, que vão desde a obesidade, diabetes, câncer, doenças degenerativas e várias outras.

O caminho é tratar a causa, ou seja, a má alimentação, pois só através dela conseguiremos abandonar o hábito do uso de remédios, valorizando os bons hábitos da nossa saúde.

Open Heart, 2014; 1(1): e00016