É possível morrer com saúde?

Embora para algumas culturas orientais a morte chegue a ser celebrada (pois representa o retorno à nossa verdadeira essência, nosso imortal ser) falar em morte no mundo ocidental é sempre assunto a ser evitado, mesmo que o propósito da reflexão seja aumentar nosso conhecimento a respeito da vida.

Do ponto de vista biológico fomos programados, por meio da reprodução, para perpetuarmos a espécie, não interessando, teoricamente, se mantemos uma vida saudável e longeva (tanto que muitos pesquisadores acreditam que nossa expectativa de vida máxima gire em torno dos cento e vinte anos).

Se levarmos em conta registros históricos, vale lembrar que Matusalém teria sido o homem que mais viveu, chegando a novecentos e sessenta e nove anos. Enoque, seu pai, trezentos e sessenta e cinco anos, enquanto Noé, seu neto, novecentos e cinquenta. Hipócrates, o pai da medicina moderna, não chegou a passar dos cem… em um tempo em que a expectativa média de vida da época não passava dos trinta.

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Segundo dados do IBGE, a expectativa de vida do brasileiro vem aumentando nos últimos anos, ficando a média, entre homem e mulheres, em 74,9 anos (dados de 2013) contra 62,5 anos em 1980. Já no vale do rio Hunza, na fronteira entre a Índia e o Paquistão, a expectativa de vida média da população, nos tempos atuais, é de 120 anos, sem contar que seus habitantes quase nunca ficam doentes e mantêm uma aparência sempre jovem.

A verdade é que, como dito no começo, falar da morte física, ou seja, a que nós conhecemos, é falar da vida, ou melhor, refletir sobre a forma que estamos vivendo. Como brasileiros estamos vivendo mais, sem sombra de dúvidas. Mas a que custo? E com que qualidade?

Na prática o que estamos vendo é uma geração inteira de idosos dependentes de remédios e cuidados, muitas vezes perdendo o contato com o mundo e seus entes queridos. E mesmo em idades não tão avançadas muitos já ‘sobrevivem’, pois perderam o que poderíamos chamar de qualidade de vida.

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Onde teria parado a noção de uma vida plena e ativa que, independe da idade, seria a razão desta existência? Envelhecer pode até estar programado em nosso código genético, mas morrer doente, não.

Certa vez uma paciente contava, triste, que sua mãe de noventa e dois anos de idade havia falecido. No dia anterior à sua morte havia ido à academia (sim, ela praticava musculação), feito compras, passado a tarde com as amigas, ligado para todos os filhos para saber como tinha sido o dia e combinado o almoço de sábado da família, desejando a todos uma boa noite.

Quase ao amanhecer, chamou a irmã com a qual morava e, sem desespero, avisou: estou morrendo! Tomada por uma paz e tranquilidade seu corpo parou de funcionar. Ao ouvir tal relato não pude conter minha observação: “que morte linda”!

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Sei que pode soar estranho, talvez até ‘mórbido’, e por isto peço que não me entendam mal: não tenho fixação alguma pela morte, mas a encaro com uma passagem; fisicamente falando, uma transmutação de energia, onde nossa frequência mais baixa, a da matéria, eleva-se às mais elevadas, conduzindo-nos de volta à nossa origem.

Atualmente nos preocupamos tanto com a morte que estamos esquecendo de realmente valorizar a vida. É como se estivéssemos presos numa busca por viver mais a qualquer custo. Se ciência busca, cada vez mais, estender nosso tempo de vida por que não tentar entender o real significado da palavra imortal? Por que se a biologia se preocupará apenas com a perpetuação da espécie, cabe a cada um de nós buscar a vida eterna, plena e saudável.