Lições de Hipócrates e os conceitos da macrobiótica

Nascido na ilha grega de Cós em 460 A.C Hipócrates é considerado o pai da medicina ocidental, tendo sido o responsável pelo direcionamento dos conhecimentos em saúde no caminho científico.

Membro de uma família de “asciepíades”, pessoas que praticavam os cuidados relacionados à saúde, defendia a ideia de que muitas das epidemias estariam correlacionadas a fatores climáticos, raciais, dietéticos e do meio em vivemos. Para Hipócrates a primeira regra ao avaliar um doente era olhar para a sua nutrição. Seu lema era “independente do pai da doença, a dieta seria a mãe”.

A clássica “que o seu remédio seja o seu alimento, e que o seu alimento seja seu remédio” figura entre as frases mais proclamadas quando o assunto envolve alimentação e saúde, mas, infelizmente, após quase duzentos anos de revolução industrial e uma completa modificação do que chamamos de alimento, estamos cada vez mais distantes das lições do pai da medicina.

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Naquela época Hipócrates não se referia às calorias dos alimentos, na verdade o termo iria ser introduzido em 1824, pelo físico-químico francês Nicolas Clément, mas sim à qualidade do que comemos.

Uma dieta dita saudável envolve a escolha certa dos alimentos para cada espécie animal, afinal de contas aquele organismo estará preparado para digerir os alimentos, processar nutrientes e eliminar os resíduos tóxicos. Para entendermos o que seria ideal para o nosso consumo basta olharmos para nosso sistema digestivo, afinal de contas, será nele que o alimento será processado.

Um leão, por exemplo, essencialmente carnívoro, possui intestino curto, permitindo a rápida saída do corpo do resto do alimento não processado, evitando assim a putrefação por bactérias no intestino. Outros animais, mesmo que de grande porte, como a exemplo do boi, alimentam-se basicamente de capim, pelo fato de seu sistema digestivo ser apropriado para tal.

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Nós, seres humanos, possuímos um intestino muito longo, que seria mais apropriado para o processamento de grãos. Quando consumimos carnes em excesso seus resíduos se acumulam neste longo trajeto permitindo então a ação nociva das bactérias de putrefação.

Na década de sessenta os pesquisadores Michio e Aveline Kushi, juntamente com Georges Ohsawa, introduziram o conceito da “macrobiótica” como regime alimentar e de estilo de vida, implementando o velho aforismo “alma sã em corpo são”. Tais conceitos se assemelham aos hábitos alimentares de certos povos orientais, como os japoneses e os indianos.

Seguindo seus princípios, e composição do organismo humano, a nutrição ideal seria composta de 50% a 60% de grãos, 30% de vegetais, 5% de sopas e 5% de castanhas, cogumelos, ervas e frutas. Leite e derivados, assim como carnes, açúcar, mel, adoçantes artificiais e produtos industrializados deveriam ser evitados. Peixes, frutas e certos tipos de pães (feitos com massa azeda), poderiam ser consumidos apenas em pequenas quantidades.

Muitos dados a respeito da vida de Hipócrates são incertos, pelas dificuldades de registro da época, mas sabe-se que o “médico” viajou pela Grécia levando seus ensinamentos e também esteve no Oriente, onde provavelmente teve contato com outras culturas. Faleceu na cidade grega de Tessália aos noventa anos de idade, o que talvez prove que, independente da expectativa de vida da época, alimentação, saúde e longevidade sempre andaram de mãos dadas.

Existiria uma alimentação ideal?

Como dito pelo “expert” americano em alimentação Joshua Rosenthal “a nutrição é uma ciência engraçada. É o único campo onde as pessoas conseguem, cientificamente, provar teorias totalmente opostas e mesmo assim, estarem certas”.

Talvez o grande problema esteja na individualização dos princípios ativos dos alimentos. Ao fazermos um estudo avaliamos aquela pequena parte do todo, esquecendo o todo.
Tomemos como exemplo o caso do licopeno, princípio ativo encontrado no tomate. Estudos mostram que o licopeno possui grande poder antioxidante, o que nos fez assumir que o tomate, rico em licopeno, é bom para a saúde, inclusive na prevenção de câncer.

Em outros estudos, avaliando o consumo do tomate em relação ao desenvolvimento de certos tipos de câncer, o que se observou foi um aumento da velocidade de crescimento das células cancerígenas. Ou seja, nestes casos o tomate faria mal a determinadas pessoas. Exemplos como este são comuns, gerando sempre confusão e informações contraditórias.

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De acordo com o pesquisador americano Roger Williams, PhD, também devemos assumir que, como espécie, temos as mesmas necessidades nutricionais, mas que temos fatores bioquímicos individuais que influenciam na forma como processamos os alimentos, tornando a equação do que comer mais difícil.

Somam-se as estes fatores os contaminantes ambientais, cada vez mais presentes em nosso cotidiano, assim como as modificações genéticas dos grãos, a adição de conservantes e produtos químicos nos produtos industrializados. Vale a pena lembrar que na época de Hipócrates, onde o pai da medicina já alertava sobre a alimentação, nem imaginávamos esta quantidade de aditivos e modificações nos alimentos.

Portanto é realmente difícil, para não praticamente impossível, chegar à conclusão de qual a melhor dieta a ser seguida. Mas ao constarmos que, de fato, falhamos ao esquecer que a alimentação é a base da nossa saúde, podendo ser considerada a mãe de todas as doenças, buscar rever nossos conceitos sobre alimentação pode ser a saída para aqueles que se encontram doentes ou busquem uma melhor de qualidade de vida.

Fazendo parte de uma cultura ocidental não fomos educados em relação à importância de uma alimentação ou estilo de vida em que a conexão mente e corpo estivesse envolvida. Evoluímos diante de conceitos fundamentados na análise das partes, e não de um todo.

A nossa grande vantagem é que vivemos em uma era onde a informação está acessível a todos que a busquem, permitindo que cada um possa construir o seu plano ideal alimentar e de vida. Sempre lembrando que somos de uma mesma espécie, mas com características individuais que nos fazem únicos, e que culturas milenares evoluíram em cima de conceitos ligados à alimentação.

Como dito pelo Professor José de Felippe Junior “a verdadeira causa das doenças e a medicina ainda não fizeram as pazes. É porque a medicina ainda é muito jovem. E o que dizer dos tratamentos”. Talvez a resposta esteja realmente, como já dizia Hipócrates, na alimentação.

Para ler mais:

http://medico.alfredocoelho.com.br/project/qual-o-rotulo-da-sua-alimentacao/

http://medico.alfredocoelho.com.br/project/obesidade-e-a-conta-das-calorias/

http://medico.alfredocoelho.com.br/project/criancas-devem-tomar-leite/​