Obesidade e a conta das calorias

Este ano pela primeira vez na história da humanidade o planeta Terra chegará ao saldo de mais mortes como consequência de doenças ligadas à obesidade do que pessoas morrerão de fome. Passamos, de acordo com o Ministério da Saúde, em publicação de 27 de agosto do ano passado, de um país onde há doze anos tínhamos um programa chamado de “Fome Zero” para um país onde mais da metade da população está acima do peso.

Atualmente uma entre cada cinco crianças estão acima do peso, quando no século passado a conta mostrava uma entre cada vinte. A obesidade hoje causa mais mortes do que o cigarro, e pesquisadores acreditam que o aumento da incidência de câncer esteja ligada ao excesso de peso.

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Foi em 1824, através do jornal Le Producteur, que pela primeira vez se ouviu falar do termo “caloria”, medida descrita pelo físico-químico francês Nicolas Clément, que correlacionava a quantidade de energia necessária para elevar em um grau Celsius a temperatura de uma determinada quantidade de água.

Nem Clemént, assim como o resto da população mundial, poderia imaginar o impacto que sua medida causaria na saúde da humanidade, a partir do momento em que passamos a utilizá-la para medir a quantidade de energia existente nos alimentos e correlacionar, diretamente, o ganho de peso, ou seja gordura, à quantidade de calorias ingeridas.

Até o começo da década de 1950 pouco se falava na prática de uma atividade física, tanto que médicos chegavam até acreditar que exercícios físicos poderiam causar ataques cardíacos até queda da libido.

Foi buscando analisar os efeitos da ingestão calórica em associação com a prática física que o pesquisador francês Dr Jean Mayer concluiu, em 1953, que ratos de laboratórios que se exercitavam mais engordavam menos.

Dava-se início à revolução das academias e a afirmação do conceito de que exercitar-se seria o caminho para boa forma. Entre os anos de 1980 e 2000 o número de academias americanas mais do que dobrou, mas a obesidade continuava a crescer. A conta começava a não fazer sentido, e como seguimos o modelo americano, situação semelhante começava a mudar o padrão de saúde do brasileiro.

Nas últimas décadas a indústria alimentícia nos ofereceu um verdadeiro arsenal onde o foco principal foi a redução da ingestão das calorias. Fat-free, Light, Diet, Zero, mas mesmo contando com todas essas armas o que temos visto é o aumento do peso e das doenças.

De acordo com um relatório representado pelo senado americano, que ficou conhecido como o McGovern Report, em 1977, a mudança alimentar com o crescimento dos produtos industrializados iria trazer graves consequências para o futuro da saúde dos americanos. A ideia era diminuir consumo de carnes, alimentos contendo colesterol, gorduras e açucares.

Infelizmente, por lobby das companhias produtoras de alimentos, o relatório não foi aprovado, e ao invés da redução do consumo de alimentos contendo açúcar o que vimos entre o final da década de setenta até o início dos anos 2000 foi um aumento crescente.

De acordo com o Dr Robert Lustig, professor de pediatria da Universidade da Califórnia, ao longo destes anos muitos profissionais da área de saúde mantiveram a noção de que a falha estava na falta de atividade física, não valorizando a qualidade dos alimentos.

Para o autor Gary Taubes, autor do livro “Por que engordamos e o que fazer para evitar”, o maior erro de todos esses anos foi assumir que é através de uma simples conta matemática entre o balanço do que entra de alimentos em nosso corpo, na forma de calorias, e o que produzimos de energia, gasto em atividades físicas, que iremos ter uma saúde ideal.

Nem toda caloria é igual!

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De acordo com Dr Robert Lustig ao longo destes anos aprendemos a contar a energia dos alimentos como se cada caloria representasse o mesmo impacto no processo metabólico de nosso corpo. Infelizmente nem toda caloria de comporta da mesma forma. Ou seja, nem toda caloria é igual.

Tomando como exemplo uma porção de castanhas de 150 calorias nosso corpo irá processá-las de uma forma bem diferente do que uma porção de biscoitos. Nas castanhas teremos as fibras e as gorduras boas, além de nutrientes. Já na porção equivalente dos biscoitos iremos rapidamente desdobrar a farinha em açúcar levando a uma liberação do hormônio insulina, responsável pelo acúmulo de gordura em nossas células, além não termos nutrientes necessários para a construção de nossos tecidos.

Para a pesquisadora Marion Nestle, PhD em nutrição pela Universidade de Nova York, um grande problema está no conflito de interesses entre companhias produtoras de alimentos que financiam estudos e que acabam por serem publicados aumentando às dúvidas da população sobre o que fazer.

A verdade é que a prática, muito mais do que qualquer teoria ou até mesmo “tentativa” de prova científica, não pode superar a realidade da estatística mundial: estamos engordando cada vez mais. Será que nossa educação está tão caótica que não estamos conseguindo fazer a simples conta das calorias?
A verdade simples, triste e visível é que contar calorias não descreve os processos metabólicos envolvidos no ganho ou perda de gordura.

Infelizmente fomos educados a contar calorias do que nem alimento pode ser considerado, já que produtos industrializados, farinhas processadas, adoçantes e sustâncias sintéticas adicionadas aos alimentos bagunçam completamente nosso organismo, levando à obesidade, demência, câncer e uma infinidade de doenças, sem falar no próprio envelhecimento. Valorizar a qualidade dos alimentos e não a quantidade do que ingerimos deve ser o real caminho para a saúde e a boa forma física.

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Até o trabalho do Dr Jean Mayer envolvendo ratos de laboratórios, em 1953, e a publicação do livro “Aerobics”, do médico americano Dr. Knenneth H. Cooper, a ideia de exercício aeróbio nem existia.

Mas assim como estamos aprendendo que contar calorias não representa acumular ou perder gordura corporal, o mesmo se aplica às atividades físicas. Infelizmente muitos ainda imaginam que aqueles números que aparecem nos monitores de esteiras, bicicletas ou escadas representam a conta mágica das gorduras que estão sendo “queimadas”.

Chefe do Laboratório de Genética Molecular da Universidade Rockfeller, Estados Unidos, o médico e pesquisador Dr. Jeffrey M. Friedman, atesta que acreditar que apenas a prática de um exercício aeróbio levará à queima é um erro, já que é a alimentação, em sua qualidade, quem determinará tais resultados.

Dr Hugo Roy, da Universidade de Northwestern, Estados Unidos, chama a atenção para o fato de que o aumento da prática de uma atividade física leva, invariavelmente, a um maior consumo de alimentos, podendo ainda até agravar a dificuldade em perder tal peso.

Ou seja, o que determinaria a melhora física, dentro de um aspecto de ganho ou perda, está primeiramente relacionado à sua alimentação. Usar a atividade física, principalmente a aeróbia, como arma, ou conta, para corrigir os erros alimentares é a mesma coisa do que achar que comer menos, consumir produtos diets e lights emagrece.