Somos realmente seres humanos?

Dentre as várias teorias que buscam explicar a evolução do homem, e da vida no planeta Terra, sabemos que as bactérias estão entre os organismos mais antigos, já existindo há quase quatro bilhões de anos.

Mas foi apenas a partir de 1976, após a criação do microscópio, que o homem passou a enxergar estes pequenos micro-organismos. O termo bactéria veio bem depois, em 1828, e não demorou para que o homem passa-se a correlacioná-las a uma série de doenças contagiosas.

Com a descoberta da penicilina, em 1928, e com o propósito de erradicar de nosso organismo estes seres “ameaçadores” à saúde, demos início a uma das maiores guerras travadas pela medicina.

O termo guerra pode aqui ser adotado no sentido real da palavra pois, como todo e qualquer ser que tem sua vida ameaçada, nossos habitantes invisíveis reagiram, lutando pela sobrevivência.

E em menos de cem anos de batalha as estatísticas mostram que, felizmente, estamos perdendo. É que a batalha antibióticos e resistência bacteriana já mata mais do que a AIDS. Nos Estados unidos são 23.000 mortes anuais causadas pela falha dos antibióticos, contra 15.000 ligadas ao HIV.

Mas dizemos felizmente porque finalmente o homem está passando a compreender melhor o sentido e a necessidade da existência de micro-organismos em nosso corpo.

A assustadora verdade é que para cada célula do nosso corpo existem dez bactérias, ou seja, podemos dizer que somos apenas 10% humanos. Juntos, estes micro-organismos pesam quase dois quilos, e produzem toxinas, hormônios e neurotransmissores que podem até ser capazes de alterar nosso humor, influenciando o funcionamento de nosso cérebro.

Poderíamos dizer que, assim como em nossa civilização, existem os bandidos (as bactérias nocivas) e os mocinhos (as bactérias amigas). Pesquisas realizadas na Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, mostram que uma determinada substância produzida por um grupo de bactérias presentes no intestino é capaz de barrar a grave infeção causada pela Salmonella, comprovando um efeito aliado das bactérias à nossa saúde.

Pesquisadores acreditam que doenças crônicas como a diabetes, obesidade, doenças auto-imunes e até mesmo câncer poderiam ter correlação com a alteração da população de bactérias em nosso corpo.

De acordo com o neurocientista Dr John Cryan, da Universidade College Cork, na Irlanda, em pouco tempo iremos tratar a depressão com compostos de bactérias em vez de medicamentos antidepressivos.

Para pesquisadores a crise em que vivemos, com o crescimento das bactérias resistentes, pode estar ligada ao fato de que algumas das maneiras mais importantes de se adquirir uma flora bacteriana saudável seria através do parto normal e o aleitamento materno, esquecidos e evitados na vida moderna.

Além disso o uso precoce e abusivo de antibióticos na infância, associado a uma alimentação artificial, prejudica o desenvolvimento das bactérias boas, permitindo a proliferação das bactérias noviças.

Se não mudarmos nossa visão e ampliarmos nosso conhecimento, fazendo as pazes com este enorme conjunto de seres, entraremos na era onde a medicina não será mais capaz de tratar as infecções resistentes.

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Projeto Genoma x Projeto Microbioma

No dia 14 de junho deste ano a revista científica Nature anunciava que o primeiro genoma microbiano humano havia sido concluído. Enquanto o projeto genoma humano, concluído em 1985, identificou 22.000 genes, estima-se que o genoma dos micro-organismos com os quais dividimos o mesmo espaço físico contenha 8 milhões de genes. Isso quer dizer que temos 360 vezes mais genes não humanos do que humanos habitando nosso corpo. Pesquisas acreditam que nos próximos dez anos estas informações irão revolucionar a forma como definiremos o que é saúde e doença, nos levando a uma nova era de recursos para o tratamento de doenças. Talvez iremos até redefinir nosso conceito de “seres superiores”, onde a compreensão de nossos ecossistemas, externo e interno, nos obrigará a entender que somente com a harmonia entre todos os seres é que poderemos nos manter vivos. Afinal de contas, como já visto ao longo dos tempos e da história a “guerra” nunca foi o caminho da evolução, e o mesmo talvez se aplique à nossa saúde. Entender as bactérias poderá nos mostrar que entre o que chamamos de inimigo estejam nossos maiores e incompreendidos aliados.