Testosterona e câncer de próstata

A testosterona é uma substância que, através dos anos, vem sendo intimamente relacionada com a virilidade e sexualidade do homem. Com o processo de envelhecimento e a queda dos seus níveis os sintomas clássicos de deficiência deste hormônio, a andropausa, freqüentemente aparecem. Esses sinais incluem cabelos finos, queda de libido, aumento de massa gorda e declínio de massa magra, assim como a perda da sensação de bem-estar, algumas vezes manifestada como depressão.

Até recentemente essas alterações eram atribuídas ao “envelhecer” e os homens simplesmente aceitavam, sem qualquer resistência, o fato de seu organismo estar em processo de degeneração, processo esse que levaria, um dia, à morte. Um grande número de trabalhos têm demonstrado, ao longo dos anos, que muitas das doenças que afetam os homens de meia-idade, incluindo alterações cognitivas e do humor, disfunção erétil, doenças cardio-vasculares e alterações da próstata estariam diretamente relacionadas ao déficit de testosterona.

Mesmo assim, uso da testosterona em reposição hormonal masculina ainda divide opiniões em muitas áreas dentro da medicina, principalmente quando estatísticas mostram um aumento dos casos de câncer de próstata.

Localizada na base da bexiga a próstata é um órgão que do nascimento à puberdade permanece pequena, raramente ultrapassando duas gramas. Durante a puberdade, com o aumento dos níveis de testosterona atinge seu peso médio de vinte e cinco gramas. Por volta dos cinquenta anos de idade um novo crescimento pode ser observado, embora, neste mesmo período os níveis de testosterona estejam caindo.

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Ao longo dos anos aceitou-se que os hormônios andrógenos, representados pela testosterona, dihidrotestosterona (DHT) e DHEA, seriam os possíveis responsáveis pelos processos de aumento do órgão, assim como os casos de câncer. A ideia tida, então, é de que a testosterona seria ruim para a próstata, e que a DHT pior ainda. Trabalhos científicos pareciam sugerir este quadro, e medicamentos e tratamentos foram desenvolvidos para se bloquear a produção da DHT a partir da testosterona, seu precursor.

Numa ampla revisão da literatura científica a Dra Lisa Tenover, da Universidade de Emory, especialista em pesquisas na área da próstata, também ressalta que a testosterona não exerce papel negativo sobre a próstata como muitos acreditavam.

O andrologista inglês Dr Malcolm Carruthers, autor do livro Maximizing Manhood, 1996, alega que, tendo tratado mais de 1.000 pacientes com quadro de deficiência hormonal com o uso da testosterona por mais de 30 anos, não observou aumento da incidência de doenças entre os homens.

Em outubro de 2008 dentro da reconhecida série “From the Experts at Harvard School” o urologista Dr. Abraham Morgentaler, Professor da referida universidade e fundador do Centro “Men’s Health Boston”, publicou o livro “Testosterone for Life” (Tesosterona para a vida) cujo objetivo foi, segundo ele, proporcionar aos milhares de homens com deficiência de testosterona, informações sólidas e confiáveis a respeito dos benefícios da terapia de reposição hormonal, ressaltando a vital importância deste hormônio.

O urologista francês Dr Goerge Debled acredita que o aumento benigno da próstata (HPB) ocorra por um desequilíbrio entre testosterona e demais hormônios a nível do órgão, especificamente a diminuição proporcional da testosterona em relação ao estradiol e à proteína transportadora dos hormônios sexuais (SHBG).

Mas a mais interessante observação a respeito do assunto vem de um experimento realizado pelo Dr Atif N. Nakhla, do Hospital St. Luke’s/Roosevelt de Nova Iorque em conjunto com a Universidade de Columbia. Amostras de tecido prostático foram retirados de pacientes com HBP e, em laboratório, expostos a diferentes combinações de hormônios (testosterona, DHT, SHBG e estradiol) e medicamentos. Os resultados mostraram claramente o crescimento das amostras em meios contendo pouca testosterona e elevados níveis de estradiol e SHBG. Para o autor a combinação estradiol e SHBG seria na verdade o grande vilão. Tal trabalho foi realizado em 1994.

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Muito mais do que um hormônio sexual, a testosterona apresenta receptores em várias células do organismo, principalmente no cérebro e no coração. A síntese proteica para manutenção da massa muscular depende de testosterona. Ela é responsável por aumentar a capacidade de oxigenação pelo organismo, tem participação no controle do açúcar no sangue estimula o sistema imunológico. É de extrema importância na manutenção da densidade óssea e na produção das hemácias.

Como é um hormônio estimulador da síntese muscular e o coração apresenta inúmeros receptores de testosterona, a fraqueza do músculo cardíaco pode ser atribuída, no processo de envelhecimento, aos seus baixos níveis.

O aumento de gordura ao nível da região abdominal também é consequência dos baixos níveis do hormônio, o que aumenta o risco de ataque cardíaco, além do aumento da pressão arterial em pacientes com baixos níveis de testosterona, que também é observado.

Perda da capacidade de concentração, alterações do humor, irritabilidade, perda de memória, redução da agilidade intelectual, reclusão, cansaço generalizado e hipocondria são sintomas de ordem psicológica relacionados ao déficit hormonal. Todos esses sintomas podem estar correlacionados a um quadro de depressão, tendo a terapia de reposição um efeito terapêutico potencial.

A ideia de reposição hormonal masculina com testosterona pode ser considerada relativamente nova e, por isso, ainda muito discutida dentro da medicina. Em primeiro lugar, pelo receio de efeitos colaterais provocados pelo uso irresponsável e abusivo dos esteroides anabólicos sintéticos e, em segundo, pela corrente que ainda acredita que elevando-se os níveis de testosterona aumentaria-se o índice de câncer de próstata.

Assim como na reposição hormonal feminina, o objetivo da terapia de reposição com testosterona em homens visa a correção de seus níveis para valores correspondentes ao equilíbrio do organismo, e como visto acima revisão de trabalhos publicados mostra que manter os níveis de testosterona normais seria o mais importante fator de proteção da próstata.

A medicina é uma ciência dinâmica e a cada dia nos surpreendemos com novas informações que eventualmente não foram descobertas ontem, mas que por falta de comunicação e tempo, levamos anos para disseminar tal conhecimento. E a grande arte dessa ciência, ao contrário das ciências exatas, é confrontarmos os resultados, avançarmos com as pesquisas, individualizarmos a abordagem e o tratamento de nossos pacientes.

Nosso tema de hoje não tem como objetivo mudar o tratamento convencional da noite para o dia, mas alertar para informações que existem, e não de hoje, a respeito de um tema que interessa a grande maioria dos homens. Trabalhos como o do Dr. Morgentaler surgem para quebrar mitos e preconceitos a respeito de uma terapia que só tem a melhorar a qualidade de vida de muitos homens.